Quinta-feira, 27 de Abril de 2006

O Alquimista

        O Alquimista pegou num livro que alguém na caravana tinha trazido. O volume estava sem capa, mas conseguiu identificar o seu autor: Oscar Wilde . Enquanto folheava as suas páginas, encontrou uma história sobre Narciso.

        O Alquimista conhecia a lenda de Narciso, um belo rapaz que todos os dias ia contemplar a sua própria beleza num lago. Estava tão fascinado por si mesmo que certo dia caiu dentro do lago e morreu afogado. No lugar onde caiu, nasceu uma flor, a que chamaram narciso.

        Mas não era assim que  Oscar Wilde  acabava a história.

        Ele dizia que quando Narciso morreu, vieram as Oréiades - deusas do bosque - e viram o lago transformado, de um lago de água doce, num cântaro de águas salgadas.

        - Por que choras? - perguntaram as Oréiades .

        - Choro por Narciso - disse o lago.

        - Ah, não nos espanta que chores por Narciso - continuaram elas. - Afinal de contas, apesar de todas nós corrermos atrás dele pelo bosque, tu eras o único que tinha a oportunidade de contemplar de perto a sua beleza.

        - Mas Narciso era belo? - perguntou o lago.

        - Quem mais do que tu poderia saber disso? - responderam, surpresas, as Oréiades . - Afinal de contas, era nas tuas margens que ele se debruçava todos os dias.

        O lago ficou algum tempo quieto. Por fim, disse:

        - Eu choro por Narciso, mas nunca tinha percebido que Narciso era belo.

        »Choro por Narciso porque, todas as vezes que ele se debruçava sobre as minhas margens eu podia ver, no fundo dos seus olhos, a minha própria beleza reflectida.

 

        - Que bela história - disse o Alquimista.

                                                  Paulo Coelho, in O Alquimista, Ed. Pergaminho

    

publicado por Cris às 10:20
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Quarta-feira, 26 de Abril de 2006

Liberdade

 

liberdade1.JPG 

                                                                   imagem retirada da net

Ai que prazer
Não cumprir um dever,
Ter um livro para ler
E não o fazer!
Ler é maçada,
Estudar é nada.
O sol doira
Sem literatura.
O rio corre, bem ou mal,
Sem edição original.
E a brisa, essa,
De tão naturalmente matinal,
Como tem tempo não tem pressa...

Livros são papéis pintados com tinta.
Estudar é uma coisa em que está indistinta
A distinção entre nada e coisa nenhuma.

Quanto é melhor, quanto há bruma,
Esperar por D. Sebastião,
Quer venha ou não!

Grande é a poesia, a bondade e as danças...
Mas o melhor do mundo são as crianças,
Flores, música, o luar, e o sol, que peca
Só quando, em vez de criar, seca.

O mais que isto
É Jesus Cristo,
Que não sabia nada de finanças
Nem consta que tivesse biblioteca...

                                 Fernando Pessoa, Cancioneiro

publicado por Cris às 23:20
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

O meu poema...

(...)

Com muita coisa eu fiz o meu poema.

Aprendi-o no vento. Aprendi-o no barro.

Sobretudo na rua. E nalguns livros também.

Porém foi junto aos homens que aprendi

como as palavras são terríveis e sagradas.

 

Aqui vos deixo o meu poema. Aqui vos deixo

cidade a não rimar com liberdade

liberdade a rimar com estrela e cela

meu poema a rimar com minha vida. Aqui vos deixo

tal como sei

as coisas com que fiz o meu poema.

(...)

                           Manuel Alegre, "Como se faz um poema"

 

publicado por Cris às 23:04
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

Canção

 

Pus o Meu sonho num navio

e o navio em cima do mar;

- depois, abri o mar com as mãos,

para o meu sonho naufragar.

 

Minhas mãos ainda estão molhadas

do azul das ondas entreabertas,

e a cor que escorre dos meus dedos

colore as areias desertas.

 

O vento vem vindo de longe,

a noite se curva de frio;

debaixo da água vai morrendo

meu sonho, dentro de um navio...

 

Chorarei quanto for preciso,

para fazer com que o mar cresça,

e o meu navio chegue ao fundo

e o meu sonho desapareça.

 

Depois, tudo estará perfeito:

praia lisa, águas ordenadas;

meus olhos secos como pedras

e as minhas duas mãos quebradas.

                                            Cecília Meireles

 
publicado por Cris às 22:40
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Quarta-feira, 19 de Abril de 2006

No meio do caminho

parque nacional das sete cidades-pi

 

No meio do caminho tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

tinha uma pedra

no meio do caminho tinha uma pedra.

 

Nunca me esquecerei desse acontecimento

na vida de minhas retinas tão fatigadas.

Nunca me esquecerei que no meio do caminho

tinha uma pedra

tinha uma pedra no meio do caminho

no meio do caminho tinha uma pedra.

                              Carlos Drummond de Andrade

 

publicado por Cris às 14:44
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Domingo, 16 de Abril de 2006

Só se vê bem com o coração...

publicado por Cris às 23:15
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Quinta-feira, 13 de Abril de 2006

Amar é...

Legenda

para aquela estrela

azul e fria

que me apontaste

já de madrugada:

amar

é entristecer

sem corrompermos

nada.

Carlos de Oliveira, Cantata, 1960

publicado por Cris às 12:50
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Terça-feira, 11 de Abril de 2006

Vento que passas, leva-me contigo

Vento que passas, leva-me contigo.

Sou poeira também, folha de Outono.

Rês tresmalhada que não quer abrigo

No calor do redil de nenhum dono.

 

Leva-me, e livre deixa-me cair

No deserto de todas as lembranças,

Onde eu possa dormir

Como no limbo dormem as crianças.

                                      Miguel Torga, Diário, vol. V, 1951

 

publicado por Cris às 16:54
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Domingo, 9 de Abril de 2006

Viagem...

 





                                                                                    Vítor Dias - olhares.com




          "Nunca se sabe o que uma viagem pode trazer ao íntimo do coração. Como se o tempo de repente dum outro modo fluísse, ou mesmo a qualidade da sua hora mudasse, e uma coisa perdida aparecesse, uma dúvida se quebra, um amor acaba, e outro que nunca se tinha imaginado, de repente, nasce. Objectos que sempre tivemos por separados atam as pontas, imagens que bóiam nas nossas vidas sem ligação juntam-se e criam uma nova sequência com sentido. Outras vezes a clarividência da distância torna-se tão luminosa que se vê o fim do fim, e deseja-se regressar, ainda que não seja a lugar nenhum."

                                                                      Excerto do conto A Instrumentalina, de Lídia Jorge




publicado por Cris às 22:39
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Sexta-feira, 7 de Abril de 2006

Eu q'ria ser o Mar ingente e forte





                   Fulop Miklós





Eu q'ria ser o Mar ingente e forte

O mar enorme, a vastidão imensa...

Eu q'ria ser a árvore que não pensa

Que ri do mundo vão e até da morte...



Eu q'ria ser o Sol, irmão do Mar

O bem do que é humilde e pobrezinho...

Eu q'ria ser a pedra do caminho

Que não sofre a tortura do pensar...




Mas o Mar também chora de tristeza,

E a árv're também como quem reza

Levanta aos céus os braços como um crente!



E o Sol cheio de mágoa ao fim de um dia,

Tem lágrimas de sangue na agonia,

E as pedras, essas, pisa-as toda a gente...

                          Florbela Espanca

publicado por Cris às 12:09
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Quinta-feira, 6 de Abril de 2006

Para ser grande...

 

Para se grande, sê inteiro: nada

Teu exagera ou exclui.

Sê tudo em cada coisa. Põe quanto és

No mínimo que fazes.

Assim em cada lago a lua toda

Brilha, porque alta vive.

                                              Ricardo Reis

 

publicado por Cris às 16:18
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Terça-feira, 4 de Abril de 2006

Quem Sabe um Dia

Lotus    "Lotus" de Michael Parkes

 

(...)

Sentir primeiro, pensar depois

Perdoar primeiro, julgar depois

 

Amar primeiro, educar depois

Esquecer primeiro, aprender depois

 

Libertar primeiro, ensinar depois

Alimentar primeiro, cantar depois

 

Possuir primeiro, contemplar depois

Agir primeiro, julgar depois

 

Navegar primeiro, aportar depois

Viver primeiro, morrer depois.

                           Mário Quintana

publicado por Cris às 10:29
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Domingo, 2 de Abril de 2006

O mundo é grande...

                          Dali_WomanattheWindow.jpg

                                                          imagem retirada da net

O mundo é grande e cabe

nesta janela sobre o mar.

O mar é grande e cabe

na cama e no colchão de amar.

O amor é grande e cabe

no breve espaço de beijar.

                  Carlos Drummond de Andrade

publicado por Cris às 22:26
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Sábado, 1 de Abril de 2006

O Meu Olhar

Image hosted by Photobucket.com

 

O meu olhar é nítido como um girassol.

Tenho o costume de andar pelas estradas

Olhando para a direita e para a esquerda,

E, de vez em quando olhando para trás...

E o que vejo a cada momento

É aquilo que nunca antes eu tinha visto,

E eu sei dar por isso muito bem...

Sei ter o pasmo essencial

Que tem uma criança  se, ao nascer,

Reparasse que nascera deveras...

Sinto-me nascido a cada momento

Para a eterna novidade do Mundo...

 

Creio no mundo como num malmequer,

Porque o vejo. Mas não penso nele

Porque pensar é não compreender...

 

O Mundo não se fez para pensarmos nele

(Pensar é estar doente dos olhos)

Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo...

 

Eu não tenho filosofia: tenho sentidos...

Se falo na Natureza não é porque saiba o que ela é,

Mas porque a amo, e amo-a por isso,

Porque quem ama nunca sabe o que ama

 Nem sabe por que ama, nem o que é amar...

Amar é a eterna inocência,

E a única inocência é não pensar...

                                      Fernando Pessoa

 

  

publicado por Cris às 18:54
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O "Bloco intacto" ou "as coisas no seu estado natural"

     «Quando nos desfizermos da arrogância, da complexidade, e de algumas outras coisas que atrapalham, mais cedo ou mais tarde descobriremos o segredo simples, ingénuo e misterioso conhecido pelos do Bloco Intacto: a vida é divertida.

      É do estado do Bloco Intacto que brota a capacidade de apreciar o simples e o tranquilo, o natural e o simples. Juntamente com isso vem a capacidade de agir espontaneamente e de isso resultar, ainda que por vezes pareça estranho aos olhos dos outros. Tal como disse o Leitão em Winnie the Pooh, "o Pooh não tem muitos Miolos, mas nunca lhe acontece nada de mal. Ele faz coisas mesmo tontas e elas acabam sempre bem."»

                          Excerto do livro "O Tao do Pooh", de Benjamin Hoff

publicado por Cris às 00:12
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"Leio e estou liberto, adquiro objectividade. Deixei de ser eu e disperso. E o que leio, em vez de ser um trajo meu que mal vejo e por vezes me pesa, é a grande clareza do mundo externo."

        Fernando Pessoa

 

"Pegar um livro e abri-lo guarda a possibilidade do facto estético. O que são as palavras dormindo num livro? O que são esses símbolos mortos? Nada, absolutamente. O que é um livro se não o abrimos? Simplesmente um cubo de papel e couro, com folhas; mas se o lemos acontece algo especial, creio que muda a cada vez.”

* Jorge Luís Borges *

 

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